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AHSRAM

Ashram

por Ana Luiz

 

Nos antigos territórios da Lusitânia, existiu em tempos um velho eremita. Habitava uma humilde e precária cabana no alto de uma montanha, numerosos quilómetros apartado de qualquer tribo do território. Junto à cabana, carvalhos, pinheiros e arbustos silvestres polvilhavam o local, irrigados por uma nascente que brotava por entre duas titânicas e negras rochas. Na única divisão da indigente habitação, um enorme e rugoso tapete figurava ao centro, e o amontoado de folhas secas onde o eremita passava as noites elevava-se junto a uma das barrosas paredes. Numa das extremidades, as cinzas revelavam o local onde o lume era aceso nas noites mais frias. Surpreendentemente, numa das paredes, enormes volumes com capas em couro empilhavam-se, forrando-a como se de uma segunda parede se tratasse. Esta desconcertante quantidade de livros formava um espectáculo fascinante naquele contexto. Mais admirável ainda era o facto de todos aqueles livros terem sido escritos pela mão do próprio eremita. Era assim, escrevendo em grossos volumes, que o velhinho eremita passava os dias e muitas das noites.

A solidão do eremita era por vezes interrompida. Espaçadamente recebia e oferecia hospedagem a um viajante designado por uma das várias tribos do lusitano território. Era costume transversal a todas as tribos reunir todas as noites em volta de uma farta fogueira, onde envolvidos pela crepitante escuridão das labaredas ouviam contar as histórias que o eremita escrevia. Quando se esgotavam as histórias para partilhar, um dos tribais mais destemidos era escolhido para encetar a longa e penosa viagem à montanha do eremita, a fim de buscar um novo livro.

Para além da extrema dificuldade inerente a tal viagem, acresciam as superstições que pululavam em redor da figura do eremita. Ninguém sabia desde quando ele habitava a montanha, ou como havia chegado. Era como se ele sempre tivesse existido, pelo que uns acreditavam que era imortal, outros que se tratava de um semideus, e outros ainda que era um ser encantado ou amaldiçoado. Contudo todas as fantasiosas suposições dos tribais eram falsas e resultado exclusivo do desconhecimento.

O velhinho contava agora cerca de noventa anos de vida, e havia subido à montanha em jovem, quando tinha apenas quinze. Toda a sua tribo havia sido brutalmente aniquilada numa bárbara guerra com uma tribo vizinha. Único sobrevivente do sangrento massacre, apesar de ferido conseguira fugir, levando consigo apenas a roupa do corpo e uma bolsa a tiracolo da qual nunca se separava, e que continha apenas o seu material de escrita. Perdido e desorientado durante inarráveis dias, encontrara finalmente inestimável refúgio na cabana abandonada. Descobrira naquele local o seu ashram particular, e jurou nunca mais o abandonar por mais dias que vivesse.

Mas sobreviver em local tão inóspito e sem recursos não se revelou tarefa simples. Os primeiros tempos passados na montanha foram particularmente duros e penosos, até ao dia em que os passos desorientados de um bendito viajante perdido o levaram àquele ermo. Quando partiu levou com ele um dos manuscritos que o ainda jovem eremita fez questão em lhe ofertar pelos víveres que o desconhecido viajante com ele havia partilhado. As histórias fizeram enorme sucesso junto da sua tribo, e rapidamente se espalhou pelas tribos vizinhas a novidade da existência do eremita que escrevia histórias, e não tardaram as viagens temerárias à montanha em busca de mais e novas histórias.

Desde esses tempos que o costume foi instaurado e se manteve. Aos viajantes cabia levar, para efeito de troca, material de escrita e um animal. O animal servia para alimentar o habitante da montanha, bem como para o vestir, pelo aproveitamento da pele. Também a pele dos animais que os tribais lhe levavam servia encadernar os volumes, tornando-os assim mais resistentes à passagem do tempo. O eremita colhia dos arbustos frutos e folhas para complementar a sua alimentação, e assim, a partir do primeiro visitante, nunca mais ao solitário homem faltara forma de subsistir, e apesar dos seus poucos confortos materiais, vivia feliz entre as suas histórias.

 

Mas um dia houve em que o velhinho foi sobressaltado da sua cama de folhas por um forte e aflitivo zurrar. Soava por entre o silêncio como uma chama na escuridão, ferindo os seus ouvidos ainda entorpecidos pelo sono. Abriu a porta e viu um viajante exausto, puxando uma mula ainda mais exausta, à qual vinha atrelada uma gorda e lanosa ovelha. Os visitantes irradiavam a exaustão que os consumia, pelo que o velhinho se apressou a ir buscar água.

- Fique onde está! – ordenou ao homem, que prontamente acedeu, de joelhos vergados pelo cansaço.

Momentos depois, era refrescado pelo eremita, que após lhe ter dado de beber, passara uma rodilha molhada pelas faces e pescoço do homem. Apesar de todas as superstições que o homem carregava consigo desde que deixara a sua tribo, deixou que o eremita lhe apaziguasse a secura em silêncio. Estiveram assim bastante tempo, até sentir forças suficiente para se levantar. A viagem tinha sido muito dura, e o corpo pedia repouso. O eremita, tratou de prender e tratar os animais, e encaminhou o homem para a sua cama.

- Descanse – disse – Aqui está seguro. Nenhum mal se abaterá sobre si. – e o homem permitiu-se acreditar em tais palavras, dormindo profundamente, como se aquele entesourado desconfortável de ervas secas, fosse um verdadeiro leito dourado de realeza.

 

Acordou com o cheiro a comida e logo todos os seus sentidos se colocaram de novo em alerta. Sentia-se fraco mas um pouco mais revigorado. O eremita cozinhava. A ovelha fora sacrificada, tal como testemunhavam sua pele e lã que se lobrigavam pela porta aberta, dependuradas no exterior da casa. A mula havia sido alimentada, e tudo parecia tranquilo. O homem admirou-se com a eficiência daquele frágil velhinho. Admirava-lhe agora a figura. A roupa andrajosa mas limpa, era incapaz de esconder a magreza extrema do seu corpo, que refulgia por debaixo dos trapos. Os olhos negros espreitavam sapientes, por baixo de uma longa cabeleira alva. Os seus movimentos eram cuidados e calculados, e toda a atmosfera em sua volta era de uma profunda serenidade. O homem suspirou, pois nunca imaginara um cenário assim. Na sua cabeça a amálgama de mitos e superstições mantinha-se, inculcada pelos anos na tribo, o que o deixava desconfortável, mas o coração parecia querer gritar-lhe um sentimento contrário.

- Chegue-se aqui, meu bom homem. A comida está quase pronta.

Ele acedeu, e o eremita colocou-lhe uma tosca taça fumegante nas mãos, cheia de uma espécie de ensopado, que tinha sido destino de parte da ovelha.

Comeram em silêncio e a comida soube-lhe divinal, como se partilhasse uma refeição com os deuses do Olimpo. Sentia as forças regressarem, inundando-lhe as veias à medida que engolia o alimento. A divisão estava quente e confortável, e o lume era mantido vivo por ramagens que o velhinho lhe ia somando. Após a refeição, o eremita levantou-se e retirou de cima do amontoado de livros, um torto e rudimentar cachimbo. Os magros e nodosos dedos do ancião encheram o objecto de um preparado de ervas secas. O eremita havia descoberto, há muitos anos, que um dos arbustos, apesar de não dar qualquer espécie de fruto, produzia ervas aromáticas deliciosas. Verificara que eram úteis para condimentar a comida, e também para fazer um preparado que se assemelhava a tabaco. Servindo-se de um galho com uma labareda na ponta, ateou o torto cachimbo, inspirando longamente. Um fumo aromático e delicioso soltou-se da sua boca e das suas narinas, e perfumou a divisão.

Sentou-se em frente ao homem, partilhando agora não só o tapete, mas também o fumo, enquanto o objeto ia passando vagarosamente de mão em mão. Por fim, o velho voltou a falar.

- Conte-me meu bom homem sobre si, sua tribo e sua viagem. – Disse com um sorriso que aqueceu o homem por dentro.

Conhecido por ser de poucas palavras, o homem estranhamente começou a discorrer sobre tudo, enquanto o eremita ouvia atentamente. Horas se passaram até que terminasse, e ao fazê-lo, acreditou que falara mais naquele interlúdio, do que em toda a sua vida.

O cachimbo estava apagado, mas o seu perfume perdurava quando o eremita rompeu o silêncio que se voltara a instalar.

- Agora, é necessário que confie em mim – disse, estendendo as mãos perpendicularmente ao peito, com as palmas para cima. – Coloque as suas mãos nas minhas…

Ao viajante nem sequer lhe passou pela mente recusar. Sem entender muito bem como acontecera, aquele velhinho transformara-se em alguém a quem confiaria a sua própria vida. Estendeu as mãos com as palmas voltadas para baixo, cingindo-as às que ele lhe estendia. Sentiu uma vigorosa energia invadi-lo e desfaleceu pouco depois.

 

Levantou-se pela manhã, completamente refeito da longa viagem. Uma nova taça fumegante e provisões para a viagem, foram-lhe ofertadas antes de partir. No alforge da mula, já apetrechada e preparada para enfrentar a viagem de regresso, encontrava-se um grosso volume, encadernado em pele de vaca para ser levado para a tribo do homem, escolhido criteriosamente pelo eremita.

- Obrigado – agradeceu o eremita, momentos antes da partida, inclinando a cabeça humildemente.

O homem sentia-se diferente. Não lhe era possível descrever por palavras a experiência que acabara de viver, mas sentia a alma liberta de todo e qualquer peso acumulado pelos anos. Sentia uma felicidade diferente, mais verdadeira, pura. E foi assim que partiu, balbuciando palavras de apreço e pensando que na tribo, ninguém acreditaria na sua história. Se ele a conseguisse contar, é claro, algo de que duvidava enormemente.

Sem sabê-lo ainda, tinha razão, já que até ao final da sua viagem iria esquecer tudo o que acontecera. Mas a felicidade permaneceria sem que ele entendesse a sua origem. Às amiúdes perguntas dos tribais sobre a sua viagem, responderia com a sua característica parcimónia de palavras, o que serviria para inflacionar mitos, lendas e superstições sobre o assunto.

 

Entretanto o eremita encontrava-se novamente só, e apressou-se alegremente a dar uso ao novo material de escrita. Estendeu tudo no tapete, e concentrou-se em tudo o que a boca e a mente daquele homem lhe haviam transmitido. Sentia-se pronto para colocar em palavras escritas a alma daquele homem e da sua tribo, que resultaria muito certamente num volume de aventuras épicas e heroicas, rendilhadas aqui e ali por histórias de dores e amores.

Sentou-se no chão e começou a escrever. O ato da escrita parecia transportá-lo para uma dimensão paralela, numa viagem sem tempo nem local marcados. As horas sucediam-se e ele não sentia fome, frio, ou cansaço. A mente do viajante estava como que copiada a papel químico na sua, e as suas palavras gravadas como se esculpidas em mármore. Mas o velho sabia quão temporário era este estado, pelo que passou dois dias e duas noites a escrever velozmente, tendo sido interrompido no terceiro dia.

 

Não era habitual duas visitas se sucederem num tão curto espaço de tempo, pelo que o eremita ficou muito surpreendido ao ouvir bater na sua porta. Quando a abriu, um homem sujo e maltrapilho estava caído no chão, como se o acto de bater na porta tivesse esgotado o remanescente das suas forças. O velho, alarmado com o estado do homem, arrastou-o até à sua precária cama, acomodando-o o mais confortavelmente possível. Esta tarefa de arrastar o homem, não se revelou tão difícil quanto o velho antecipara. O homem desmaiado, apesar de muito alto, estava incrivelmente magro. Uma magreza que competia com a sua própria, e que ele nunca havia observado em homem algum.

 

Durante cinco dias, o desconhecido permaneceu inconsciente na cama do eremita, balbuciando palavras desconexas de origem febril. A sua testa ardia, e o velho preocupado com a saúde do homem, permaneceu sempre à sua cabeceira. Arrefecia-lhe a testa com a rodilha ensopada em água fresca, fazia-o beber a maior quantidade de água possível, e engolir enormes taças de caldo de carne aromatizado com folhas silvestres. A luta do homem foi constante, e as palavras de desespero que a febre expelia, como “Minha amada…filho…meus amores…” e outras similares, começaram a surgir em intervalos cada vez mais espaçadas, sinal que talvez o fogo da doença estivesse a ser lentamente apagado. Durante todo o tempo, até o homem recobrar os sentidos, o velhote permaneceu à sua beira, em cuidados e atenções permanentes.

Por vezes olhava o doente, intrigado. Não parecia ser de nenhuma das tribos que conhecia, e a sua palidez, mesmo com a doença, era exacerbada. A sua alta estatura, e os seus cabelos de cor avermelhada, eram também pouco característicos daquelas paragens. Felizmente o homem parecia recuperar, e todo o mistério deixaria em breve de o ser.

 

Quando acordou, o homem perguntou numa voz sumida e arrastada que revelava uma imensa fadiga.

- Onde estou?.. Quem é o senhor?…

- Está num lugar seguro, e eu sou um amigo. Descanse meu bom homem. – Respondeu o velho num tom terno e reconfortante.

O homem voltou a fechar os olhos e dormiu durante mais dois dias, acordando apenas quando o velho lhe tentava dar água.

 

Finalmente a sua testa deixara de emanar calor, e a batalha travada com o mal que se abatera sobre o forasteiro parecia ganha. Finalmente o homem recobrara com algum ânimo, apesar da fraqueza evidente.

Em silêncio o velho preparou um ensopado, com enormes e suculentos pedaços de borrego, que repartiram sentados no tapete. O velho olhava-o, intrigado pelos olhos sem expressão daquele homem, esvaziados mais do que pelo cansaço ou pela doença que o assolara. O eremita estava certo de que outro mal o consumia, mas esperou calmamente o final da refeição para lhe dirigir palavra no sentido de tentar obter mais informações. Sabia ser imprudente fazê-lo falar demais, dado o seu débil estado de saúde e a nada remota hipótese de uma perigosa recaída. Quando por fim as taças do ensopado foram esgotadas, o velho arriscou:

- Quem tenho o prazer de ter diante de mim?

- Meu bom senhor, meu protector e anjo da guarda… Se lhe contasse, talvez me tomasse por mentiroso, tal é a minha história. Não sei como aqui vim parar. Andei errante durante anos, fugindo da minha própria desgraça. Permita-me, meu bom homem a quem devo a vida, que aguardemos que o meu corpo me volte a responder, para que lhe conte tudo. É tão longa e triste que daria cinco volumes como os que tem naquela parede empilhados…

- Mas com certeza senhor. Será até melhor assim. Quem sabe se não escrevo também a sua história, mesmo que de cinco volumes se trate…

- E com tenho o prazer de tratar? A quem deve este perdido e desgraçado a sua vida?

- A um amigo, senhor. A um velho que escreve as histórias que lhe contam, e as oferece em troco de um pouco de alimento, ou de material que lhe permita escrever mais histórias.…

O forasteiro inclinou a cabeça em sinal de compreensão e respeito, e em silêncio deitou-se no tapete, indicando ao velho, que a cama voltara a ser sua.

 

Passaram-se muitos dias até que o viajante perdido contasse finalmente a sua história. Entretanto, tinha crescido entre eles uma robusta amizade. O eremita, estranhamente, parecia gostar da companhia e da presença daquele silencioso homem em sua casa. Um dia depois do jantar, que constituía a única refeição do dia, o forasteiro disse:

- Senhor, gostaria que me concedesse um favor.

- Se estiver ao meu alcance, considere-o feito. – Retorquiu prontamente o eremita, sem qualquer dúvida na sua mente de que acederia ao pedido do forasteiro.

- Parte da minha história mais recente, é puro sofrimento. Corri e fugi para o mais longe que consegui, para o esquecer. Julgava poder minorá-lo, aumentando a distância ao local onde depois de ter sido feliz, fui abruptamente espoliado de toda a felicidade e vontade de viver. Mas agora, temo aquilo que mais buscava. Temo esquecer…

- Mas meu amigo, tenha por favor a bondade de me contar o que lhe aconteceu…

- Sim, contarei tudo, porque tudo desejo contar. Apavora-me agora a possibilidade de esquecer…

Na breve pausa que o forasteiro fez, entre esta afirmação e o início do seu relato, o eremita levantou-se dizendo:

- Espere só um pouco, meu caro senhor.

O forasteiro aguardou, enquanto o eremita acendia o torto cachinho, enchendo a sala com um profuso e magnificente cheiro. Entre baforadas de cachimbo divididas, a história daquele homem foi também expelida, da forma que se segue.

«Tal como já lhe havia confessado, meu caro senhor, a minha história pode parecer uma invenção ou um desvario para os ouvidos da maior parte das pessoas. Poucos a conhecem, e nestas redondezas ninguém as testemunhou, pois sou de muito longe. De onde eu sou natural, fui um príncipe, mas em criança, o rei meu pai foi assassinado. Eu próprio apenas escapei da morte graças a uma senhora do povo que trabalhava no castelo, e me fez passar por seu filho. Assim cresci no meio do povo, e apesar de distar na aparência dos meus irmãos, de meu pai e de minha mãe, jamais desconfiei das minhas origens. Apenas quando cresci os pais me contaram a verdade, e mesmo saindo a história da boca deles, neguei-me a acreditar. Mas as evidências eram muitas, e quando eles me revelaram alguns pertences de berço que haviam salvaguardado da destruição, fui obrigado a aceitar aquela mirabolante história como minha.

Nessa altura, o território era governado pelo rei que matara meu pai. Não imagina a tristeza que sentia ao ver o meu povo subjugado por um tirano implacável e cruel. Aquele povo que era meu por ser eu o seu soberano por direito de nascença, mas mais meu ainda porque havia crescido entre eles e conhecia bem as suas dificuldades e o seu carácter dócil e generoso. O meu sangue impelia-me a agir, e assim o fiz.

Conquistei o antigo reino de meu pai, com a ajuda do meu povo, e quando subi ao trono, casei com a mais linda, doce e amável mulher. Desde pequenos que éramos inseparáveis. Vivíamos tudo juntos, ríamos e éramos felizes, e quando a sua barriga começou a crescer, a felicidade que eu já vivia, inacreditavelmente ainda aumentou.

Até que aconteceu a grande catástrofe. Um ignóbil, favorito do antigo rei, e que por piedade continuara a trabalhar no castelo, invadiu o quarto durante a noite, e trespassou a barriga da minha mulher com uma afiada espada. Acordei com o grito lancinante da minha mulher que ecoa ainda hoje continuamente na minha cabeça. Matei o desgraçado que me disse ainda:

- Matei os que mais amavas, como tu fizeste ao povo quando mataste o meu rei!

A partir desse dia, tornei-me um desgraçado, e incapaz de governar, nomeei rei um dos meus irmãos de criação. Era o mais corajoso mas ao mesmo tempo o de coração mais puro e bondoso. E parti, em busca do esquecimento. Não sabia na altura, que era inútil tentar fugir a algo que trazemos connosco. A minha dor acompanhou-me sempre, e ainda me acompanha. Agora dou por mim a tentar lembrar o rosto da minha amada, a imaginar o rosto do meu filho que nunca respirou, sem o conseguir. O tempo ocupa-se de me apagar as memórias mais felizes, deixando no entanto intocado o meu sofrimento…

É por isso meu caro amigo e salvador que gostaria de partilhar consigo todos os pormenores da minha história, da minha vida, para que a possa escrever. Talvez dessa forma eu possa nunca esquecer o bom que foi, o feliz que fui, apesar da dor que vem acoplada a tais memórias. A dor está gravada a fogo no meu coração, e faz já parte do meu próprio ser, mas parece que tudo o resto me vai fugindo sorrateiramente da memória”

 

O cachimbo havia-se apagado. O cheiro pairava no ar. O eremita encontrava-se abismado com a sorte do seu companheiro. Pediu-lhe então:

- Posso-lhe pedir agora que confie em mim?

- Confio em si com toda a minha alma – respondeu.

Estendendo as mãos, disse-lhe:

- Coloque as suas mãos sobre as minhas… – pediu o eremita

- Para quê meu caro senhor?

- Para que eu beba da sua alma, e entenda tudo. Não precisará de me contar mais nada em palavras, porque eu entrarei em si, e verei tudo com os olhos da minha mente.

O forasteiro olhou surpreendido o eremita, mas nesse instante percebeu que ele não lhe mentia, pelo que acedeu colocando as suas palmas das mãos sobre as do velho.

Sentiu-o entrar em si, e sentiu-o sofrer consigo. Desmaiou logo depois.

 

Também o velho eremita havia desmaiado. Aquela alma quase tinha sugado a sua. A dor do homem era tão profunda, que sorveu as débeis forças do ancião. Quando abriram os olhos, nenhum deles se lembrara o que se tinha passado, mas encontraram uma folha escrita com a letra do velho, pousada no tapete.

O eremita incrédulo, pois não se recordava de ter escrito tal coisa, pegou-lhe a medo. Que estranhos gatafunhos havia escrito. Existiam palavras, mas por cima delas, figuravam uns rabiscos em jeito de anotação. Bolas com caudas e outras sem elas, entre linhas muito fininhas. Umas para cima, outras para baixo, umas com arcos que as uniam, outras cheias com tinta, e outras só delineadas. O forasteiro, vendo o ar desconcertado do eremita, pediu para ver a folha.

- Isso não é nada, nem consigo perceber o que escrevi aí… A sua alma quase que me deixou insano. Parecia um inferno de dor…Nunca senti algo como aquilo que senti em si….

- Eu sei…- disse o homem – não o desejaria ao meu mais odiado inimigo…

De repente o eremita viu as feições do homem irradiarem uma espécie de alegria, enquanto parecia ler o papel.

- Como é que você consegue ler…

- Foi a minha vida que o senhor aqui escreveu, em música! Meu caro senhor, é música. Ouça…vou tentar cantá-la para si…

E o forasteiro começou a cantar a canção mais triste e pungente que o eremita algum dia havia ouvido. Mas que linda que era, ao mesmo tempo. Um desconcerto abateu-se sobre o velho, que verificou que as lágrimas lhe escorriam copiosamente. Nunca chorara assim. Olhou o forasteiro que chorava também enquanto cantava, colocando o peito como se desejasse que lhe desferissem um golpe fatal. Choravam, choravam, e o homem continuava a cantar. A letra encaixava na música e contava as façanhas e os desgostos daquele homem que chorava ao recordar, ao reviver a sua dor e o seu sofrimento. O choro contrastava com a beleza da melodia que invadia a sala. A mais bela música de dor…O sentimento novo que aquela música transmitia, o eremita havia-o sentido pela primeira vez na alma do forasteiro. Não sabia de que se tratava, mas sentia-o agora, de novo no peito, através da voz do seu visitante. Era como amor, mas sem o ser, como tristeza profunda mas não o era, algo penoso que dava felicidade e dor, mas ao mesmo tempo. Nunca imaginara existir um sentimento assim tão confuso.

 

O forasteiro repetiu a música por diversas vezes, e quando por fim parou de cantar e a sua voz se deixou de ouvir, tinha os olhos inchados, mas um sorriso na face. Abraçou o eremita e deu-lhe um beijo na face, agradecendo-lhe ao ouvido. Murmurava mil palavras de agradecimento, quando os seus olhos vermelhos se fecharam e ele tombou no tapete. Alarmado o eremita verificou que a vida havia abandonado o corpo do homem. Ele próprio sentia-se tão fraco e sem forças, que tombou a cabeça no peito do seu amigo e chorou de novo, longa e demoradamente. Sentia novamente algo grandioso, mas desta vez sabia o que era. Amizade. E foi a chorar sobre o seu amigo que adormeceu.

 

A construção do túmulo para enterrar o antigo rei, fora duplamente penosa para o eremita. Fisicamente sentia-se desgastado, mas o desgosto que sentia era ainda mais doloroso. O sentimento novo também não o tinha abandonado, e consumia-o em cada instante. Resolvera enterrar o papel juntamente com o amigo. Depois de ter coberto o corpo de terra e pedras, colocou o papel muito direito sobre o local correspondente ao do coração do amigo. Cobriu-o então com pedras, fazendo um amontoado que se assemelhava a uma pirâmide. Quis colocar uma lápide, com o nome de quem ali jazia, mas nunca soubera como se chamava. Procurou uma pedra suficientemente grande, e colocou-a ao alto, num dos lados da pirâmide. E aí encostou as suas costas cansadas, reflectindo sobre aquele novo sentimento que havia sido a morte do companheiro, e que ele sentia agora também, compungindo vigorosamente corpo e alma. Fechou os olhos e adormeceu agoniando para nunca mais acordar.

 

As notícias sobre a morte do eremita e sobre a estranha pirâmide que construíra antes de morrer, espalharam-se rapidamente após um viajante ter descoberto o seu corpo junto ao túmulo. Em breve a cabana seria assaltada, e todos os livros roubados. A pirâmide e o papel sofreriam a mesma sorte.

Conta-se que a canção andou de boca em boca e se tornou a canção do povo, sofrendo mutações, mas mantendo sempre o seu tom triste e pungente. Até que um dia começou a ser escrita pelos músicos, e foi necessário dar um nome àquela tão estranha forma de arte. Foi então que se passou a chamar Fado, e reza a história que nunca cantou a alma de outro povo que não a do Lusitano.


AHSRAM

  • Author: Ana Luiz
  • Published: 2015-11-20 19:40:06
  • Words: 4223
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